Coluna: Quando o ano começa cobrando demais

É 2026. Janeiro chega com fogos, promessas, metas e uma lista imensa de cobranças. A virada do ano vende a ideia de recomeço absoluto, como se bastasse trocar o número do ano para mudar a vida inteira.

É aí que as metas irreais se multiplicam: emagrecer rápido, ganhar mais dinheiro, ser mais produtivo, mais feliz. Mas o discurso motivacional costuma ignorar um detalhe básico: pessoas têm limites, histórias diferentes e cansaços acumulados.

Quando de fato a realidade não acompanhar o entusiasmo de janeiro e quando as metas não são bem elaboradas, os resultados são a frustração, a culpa e, em muitos casos, a ansiedade.

Segundo a psicanalista Luana Carvalho, esse processo começa no campo do ideal. Do ponto de vista psicanalítico, as resoluções de Ano-Novo funcionam como promessas do chamado “eu ideal”. O sujeito projeta no início do ano a fantasia de uma transformação completa — seja emocional, financeira, corporal ou relacional — como se a virada do calendário tivesse o poder de apagar conflitos internos, dores antigas e limites reais.

Mas o problema aparece quando essas metas não se sustentam no cotidiano. A rotina cobra, os imprevistos surgem e o cansaço permanece. Nesse choque entre expectativa e realidade, o que deveria motivar passa a machucar e desmotivar.

Esse cenário é reforçado pelo discurso da performance constante. A ideia de que é preciso produzir, melhorar e vencer o tempo todo transforma descanso, erro ou pausa em sinal de fracasso. Na clínica, segundo Luana, esse tipo de narrativa ativa mecanismos de culpa e comparação, além de fortalecer um superego rígido e punitivo. Quando se repete que “quem quer, consegue” ou que “esse é o ano para dar certo”, ignora-se a complexidade do sujeito, seus atravessamentos emocionais, traumas, contextos sociais e limites psíquicos.

A esse peso se soma outro fenômeno típico de janeiro: as comparações digitais. As redes sociais viram uma vitrine emocional ainda mais intensa. Ao entrar no Instagram, por exemplo, depara-se com viagens, corpos em forma, projetos iniciados, agendas organizadas, sorrisos constantes. A impressão é de que todo mundo começou o ano do jeito certo — menos você.

Segundo Luana Carvalho, as redes sociais operam como um espaço de exibição do ideal, não da realidade. O sujeito passa a comparar seu bastidor emocional com o palco editado do outro. Isso intensifica sentimentos de inadequação, inveja inconsciente e desvalorização do próprio percurso.

Isso me lembra o filme “Comer, Rezar, Amar”, que ajudou a consolidar a ideia de que uma decisão simbólica de recomeço pode transformar a vida de forma quase imediata. Na vida real, porém, mudanças não acontecem em capítulos bem definidos nem obedecem a datas especiais. Elas são lentas, imperfeitas e cheias de pausas.

Talvez seja hora de rever a lógica do “ano novo, vida nova”. Começar devagar também é começar. Não ter grandes metas também pode ser cuidado. Janeiro não precisa ser um palco de performances. O ano não precisa começar leve para dar certo. Mas não deveria começar esmagando.